sinto dor por ler e concordar…



Tudo “legal” entre a Record e a Universal

Domingo de manhã. Fui comprar pão. Em frente à padaria tem uma porta cristã aberta logo cedo. A voz rouca ao microfone me chamou atenção. Entrei e me acomodei. Dentro daquele ambiente, vieram-me algumas lembranças…

Quinta-feira, dia 27 de setembro do ano passado…
Inauguração da Record News – novo canal de TV do Sr. Edir Macedo. Apesar dessa inauguração representar uma maior “democratização do mercado da informação”, e mais notícias a nossa disposição, algumas mentalidades cristãs mais escrupulosas diriam que isso tudo assusta muito e ultrapassa a margem da legalidade.

Talvez se diga: “Uma TV da Igreja? (Na verdade, são duas TVs!). Ou a Igreja que é da TV? A TV existe com o dinheiro da Igreja? Ou o dinheiro da TV é para a Igreja? Mas como uma igreja tem duas TV para fins lucrativos, se a igreja é uma entidade beneficente e sem tributação de impostos???”

Calma, cristãos éticos e cidadãos de bem, eu explico: Não há nada ilegal. A Igreja não tem nada. A igreja não tem fins lucrativos. A igreja tem seu patrimônio e seus mais de 1.500 templos e só. A TV, todavia, não é da igreja. A TV é do Senhor Edir Macedo, mega-empresário do setor de comunicações. Ele é empresário, e também é bispo da Igreja. Ilegal? Nada ilegal. Eu também sou profissional liberal e ministro do Evangelho. A clínica é minha. A igreja, não.

“Como ele comprou as estações de TV, então?” Ora, comprou com o dinheiro dele! Com o “salário” dele de bispo! - suponho. A maioria dos religiosos não vivem do sacerdócio? Sim! Então qual é o problema? Nada ilegal. É o chamado pró-labore! Ganha quanto a “instituição” decide que se vai ganhar!

“E a relação TV – Igreja? Parece tudo a mesma coisa, oras??!!” Parece, mas não é! Nada ilegal tampouco. Veja o que a Central Record de Comunicação respondeu, por e-mail, ao site Terra:
- A Record lucra com a comercialização de espaços publicitários em sua programação. O horário da madrugada está negociado com o cliente Igreja Universal, que possui diretrizes independentes e distintas em relação à Record.

Viu? Tudo legal. Tudo explicado. A Universal compra os horários da Record. A Record vende os horários para a Universal. Vende caro. Muito caro. Super-faturado! Vende por quatro vezes mais do que a Globo vende seus horários da madrugada, mesmo tendo quatro vezes mais ibope nessa mesma faixa que a Record! Mas e daí? A cliente paga, oras. Ela aceita o preço! Nada ilegal.

“Mas toda a direção da Record não é constituída de bispos e obreiros da Igreja, não é?” Sim. Mas procura aí onde isso é ilegal? A Record contrata seus funcionários como quiser e de onde desejar. A Record não é um orgão público que contrata via concurso.

Se eu quiser colocar meu pai, minha mãe, meu amigo, meu irmão para trabalhar na minha Clínica Privada o que você tem a ver com isso? A empresa é minha, eu contrato quem eu quiser, mesmo que tal pessoa nem tenha ainda a devida formação para o cargo. Isso é problema meu! A clínica não é estatal, é particular!

“Meu Deus, mas de onde vem, então, tanto dinheiro para comprar tanto horário de TV por tão alto valor, visando a nobre causa de evangelizar o país???” Ora, vem das contribuições espontâneas que se fazem de domingo a domingo, três a quatro vezes por dia, em mais de 1500 templos simultaneamente. Nada ilegal.

“Como não? É dinheiro do povo!!! Dinheiro que se recebe e sobre o qual não incide impostos?” Ora, e não é assim com toda associação filantrópica? Ou alguém dá dinheiro forçado? Levanta a mão quem paga na marra? Alguém é obrigado a ofertar? Algum obreiro vai lá e mete a mão no bolso do devoto? Lógico que não! Daí não haver extorsão e nem subtração. Dá quem quiser! Portanto, até onde se enxerga, fica assim entendido: Tudo dentro da Lei. Tudo legal!

Domingo de manhã. Estou naquele culto evangélico do começo desse texto, lembram? Voltei de meus pensamentos. Olho para frente. Tem uma espécie de “arca da aliança” que está girando iluminada sob um altar atrás do púlpito.

O moço na tribuna falava sobre Dagom, o deus filisteu que se ferrou depois que recebeu em seu templo a Arca da Aliança Mosaica roubada da nação vizinha. Na história bíblica, os judeus nem precisaram se mexer em busca da Arca Perdida. O povo inimigo se consumiu em pestes, hemorróidas e tumores até devolverem o objeto sacro! Conheço a história desde menino! Só não conhecia o aplicativo feito no microfone:

“Você quer vencer Dagom? Quer? Então… Não se mexa para nada! Sabe aquele dinheiro que você ia pagar para o advogado tentar tirar seu filho da cadeia? Sabe aquele dinheiro que você ia usar para comprar o remédio que o médico receitou para a doença crônica? Você vai trazer aqui na frente, diante da Arca Giratória!!” (”giratória” é expressão minha. Impressionou-me a alegoria. Mas todo o demais, eu ouvi como agora se lê…)

“Não pague o advogado, não compre a medicação! Pratique a fé! Quanto você não daria para tirar seu filho da prisão? R$ 3.000,00? R$ 2.000,00? Ou não daria até muito mais? Você não faria todo sacrifício que fosse necessário? Sim ou não? Então vem trazer esse dinheiro aqui no Balcão de Negócios Divinos” (bom, confesso: “balcão de negócios divinos” ele não falou não… Eu que inventei… Mas juro que só inventei mais essa!)

“Quando você pagaria para ficar curado? Para ter saúde? Não daria até tudo que tem? Então para que você vai dar esse dinheiro para o remédio se você pode dar para Deus? Quem já tem a arca em casa (uma arca pequenina “dada” aos que exercitam a fé!) vem aqui na frente para nós oramos por você!”

Fiquei sentado com mais alguns poucos.

“Agora vem quem não tem a arca ainda.”

Aí todo mundo se levanta e caminha para o altar matadouro. Já sabem que Deus só vai abençoá-los se permitirem que lhes arranquem o couro, a pelo, a lã… (Mas, tudo na vida tem seu preço, não é?) Daí vejo a fila. A fila. Mães desesperadas. Doentes aflitos.

“Você pode ter a Arca da Aliança por R$ 90,00 – não menos que isso!”

(Dessa vez não inventei nada, o limite para levar o objetinho ordinário era esse mesmo!)

Só eu fiquei. Fiquei só. Eu, dois obreiros e meu dinheirinho do pão.

Saí. Saí sem arca. Saí inteiro… Mas arrancaram minha alma logo cedo. Dei as costas, que ficaram pesadas com a tristeza de ter visitado o templo de Dagom. O templo onde a Arca sequestrada gira em exposição, como amuleto!

Sim, eu fui ao templo de Dagon, onde a dádiva é comprada sob signos judaico-cristãos. E saibam disso todos os seus adoradores: só existe um “deus” que negocia as respostas de oração em espécie - Lá o chamam de “Jesus”, mas seu nome é Diabo! O estelionato é de cunho espiritual, mas essa categoria de crime não consta na nossa legislação! E isso não passa na Record. Na Record é tudo legal. Tem até novela com qualidade global.

DESABAFO: Então a gente nunca vai pegar esses caras, entendeu???!!! O dinheiro da Record está dentro da Arca! A Arca-Baú, a Arca-Cofre, a Arca Perdida num templo “cristo-pagão”!

Entretanto, há algo com que eles simplesmente não contam: Deus existe! Sim, o dono da Arca existe! E Ele não obedece a Constituição. Ele ultrapassa a margem da legalidade. Ele é marginal. E daqui a pouquinho essa Novela termina! Os últimos capítulos já foram escritos e revelados: Como no registro bíblico, Dagom vai perder a cabeça de novo e a brincadeira de apetrechos bíblicos comercializáveis tem prazo de validade e logo logo vai acabar! Ah! Vai!

“Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis…”

Marcelo Quintela

créditos: seu nicacio

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