EXPLORAÇÃO DA FÉ ─ ATÉ QUE PONTO?

Por: Levi B. Santos



No tempo de minha meninice, era um leitor cativo do “Mensageiro da Paz” – jornal editado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Dentre os tópicos deste periódico, um me chamava mais atenção: era o da página de testemunhos de curas e milagres, que ainda hoje é ventilada, nesse mesmo jornal, de uma forma não extravagante.

Talvez aquele antigo desejo de ver maravilhas ainda esteja latente em meu inconsciente, pois hoje, ao assistir o Jornal Nacional ─ edição das 20 horas, sempre que posso, dou minhas passadas pelo canal da Band, que no seu horário nobre exibe o programa “show da fé”. A parte do programa que divulga curas e milagres por este canal de TV tem causado constrangimentos em toda blogosfera, e nem de longe se parece com os testemunhos simples e eletrizantes, que eu lia no jornal evangélico que circulava e ainda circula por todos os recantos do país, a cada quinzena.

Há pouco mais de três semanas, uma chamada desse programa na Band, me fez ficar de cabelo em pé. Poderia ter gravado o inusitado caso, mas na hora, a estupefação fez com que eu esquecesse esse importante detalhe.

Em suma, foi mais ou menos assim o grotesco acontecimento:


─ Meus amigos telespectadores! Daqui a pouco vocês vão ouvir um relato de um grandioso milagre. Deus recuperou instantaneamente a virgindade de uma nossa irmã. Ela está aqui presente, e vai contar tudo ─ diz o eufórico Pastor, esfregando uma mão na outra.

Pulei da “cadeira do papai” em que estava bem acomodado, e fiquei com os olhos arregalados, sem querer acreditar no que estava ouvindo.

O show da fé, nessa noite, foi muito longe no seu somatório de aberrações. Como médico, sei perfeitamente que a virgindade não é só representada pela higidez dessa frágil membrana do órgão sexual feminino. A perda da virgindade é muito mais do que a ruptura dessa simples estrutura anatômica. Se houve o ato sexual, ele se passou numa esfera psico-afetiva mais profunda, envolvendo, é claro, a consciência e a química cerebral do casal. É impossível negar, desfazer ou esquecer aquilo que foi realmente sentido ou vivenciado sexualmente. Recuperar a estrutura himenal não significa, de modo algum, dizer que a virgindade foi restabelecida.
Uma analogia, para melhor entender o que me parece óbvio : o fato de se zerar o indicador da quilometragem do carro usado, não significa que o mesmo se tornou zero km.


Esperei curioso o emblemático caso da recuperação da virgindade, tão bisonhamente alardeado. Tive asco quando ouvi o maior personagem do show falar:

─ Irmã, conte-me como foi essa tremenda cura, que lhe fez ficar virgem de novo! ─ disse ele dando os seus pulinhos e risadinhas características.

Quando vi a mulher, aparentando seus trinta anos, mais encabulada que alegre, com um jeito de quem estava ali sendo explorada de forma hedionda, a adrenalina me subiu, e fiquei altamente indignado.

A pobre irmã tinha se envolvido sexualmente antes de ser crente, mas agora estava a li a apregoar, diante de aplausos, que agora Deus tinha restabelecido a sua virgindade.

A que ponto a exploração da fé chegou. No tempo das minhas leituras dos milagres e curas do jornal Mensageiro da Paz, pelo menos, os grandes feitos da fé eram comprovados com fotos de atestados e radiografias fornecidos por entidades médicas. Tudo bem documentado.

Agora não, tudo se tornou tão banal, que de uma cura ou milagre não se exige mais comprovação científica. Os “predadores” do evangelho não se importam com isso, desde que as falsas curas encham os seus baús com o tesouro que a traça e a ferrugem comem. O Deus deles se mede pelo número de concentrações realizadas. Dizem: “hoje tem espetáculo às 9.00, 11.00, 15.00 e 20 horas”. Com promessas falsas e jargões de caráter apelativo, ludibriam muitas pessoas, as quais são levadas aos locais dos eventos (praças e avenidas), como bois que são conduzidos ao matadouro. Multidões, cada vez maiores, à procura de consolo, se deixam levar pelo ABSURDO das mensagens estapafúrdias e curas de mentira, sempre acompanhadas das costumeiras salvas de palmas para Jesus (digo, Zé Jus)

Acredito que esses vendedores de supostos milagres, caso não se arrependam, um dia, ouvirão Cristo dizer categoricamente:

“[...] Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim vós que praticais a iniqüidade”. (Mateus 7 : 23)

2 comentários:

OLHO VIVO disse...

MILAGRES & MILAGRE$
NO QUE CREIO

Que eu creio em milagres disto eu não tenho dúvidas até porque eu sou um deles, o que eu não admito em hipótese alguma e não creio é nesta indústria da exploração do povo estampada diariamente nas telas das televisões e nos templos de entidades que usam a religião como instrumento de abuso na venda de curas que não passam de trapaças e de encenações para ludibriar a fé do povo. Os milagres existem, mas existem também os MILAGREIRO$ que utilizam destas artimanhas para extorquirem boas somas dos desavisados e dos desesperados.

O primeiro ponto a observarmos nesta questão dos milagres relatados na Bíblia é em que circunstâncias eles aconteceram? Invariavelmente todos os milagres descritos nas Escrituras foram resultados de momentos na vida daqueles que foram INSTRUMENTOS para que os mesmos acontecessem, inclusive Jesus. Em momento algum se propagou ou se divulgou, como se faz hoje, que este ou aquele ia passar ou estar em tal lugar e que em estando ali haveria sinais de curas e milagres, isto está muito claro nas Escrituras. Não há relato nas Escrituras sobre campanhas de curas e milagres, ninguém saia avisando que um Super Herói iria estar em tal cidade e ali faria mil e uma maravilhas. Outra coisa é que os homens de Deus, incluindo o próprio Jesus, eram muito reservados quanto a esta prática de curas e milagres, até porque sabia-se que isto poderia se transformar, como aconteceu de fato, numa industria e numa mina de dinheiro e de ESCÂNDALOS. Os milagres nos tempos apostólicos eram realizados através de pessoas SÓBRIAS e comprometidas com o Evangelho, que viviam em função dele EVANGELHO e não de patrocinar entidade, igrejas ou agremiações. Também não era usado para desmoralizar a concorrência ou para demonstração de poder ou de superioridade. Outro fato interessante é que os milagres não se resumiam a isto ou aquilo, curava-se enfermidades, restaurava-se o físico, ressuscitava-se mortos, mas tudo dentro de critérios que de fato pudessem dar sustentação aos acontecimentos. Assim, Jesus usou o lôdo para dar vista ao cego, a água para transformá-la em vinho e até um morto para ser ressuscitado. Outro fato a considerar é que jamais um demônio foi se manifestar dentro de um templo, coisa que hoje é comum, daí se imaginar que há algo errado nas igrejas uma vez que até nos terreiros de umbanda a sua manifestação é rara. Eu poderia ir mais longe, mas fico por aqui.

Segundo, como precederam e como se deu depois de serem consumados os milagres? Invariavelmente todos os milagres relatados nas Escrituras precederam da necessidade da manifestação real do poder de Deus para que o povo pudesse crer naquilo que ouviam. Havia todo o cuidado para que aquilo não se transformasse em um ESPETÁCULO nem tão pouco p paciente fosse exposto ao ridículo como ocorre hoje. Na realidade hoje os CURANDEIROS vivem de mostrar as suas proezas como forma de demonstrarem abertamente quem é o mais poderoso, qual a igreja contabiliza o maior numero de prodígios, qual a igreja tem o milagre mais cabeludo e vai por aí. A linha não muda, todos sem exceção, exploram com irracionalidade a boa fé do povo. Outra coisa é que os favorecidos por um milagre tinham a recomendação expressa de não fazerem qualquer propaganda daquilo que haviam recebido como graça de Deus. Mas, o que se vê hoje é uma indústria de propagandas imoral que visa exclusivamente atrair o povo para ser extorquido dentro das igrejas. A questão fundamental que é a salvação da alma e a conscientização da condição de pecador foi abolida destas igrejas, se é que podemos classificá-las como tal, dando espaço para uma espiritualidade triunfalista baseada na irracionalidade de se procurar Deus pelo que ele pode oferecer e não pelo que ele é.

Continua...

OLHO VIVO disse...

Continuação...

Creio em milagres sim, e sou um deles. Há tempos atrás, caí do telhado da igreja numa altura aproximada de 5,0 metros e para a medicina convencional eu seria parte das estatísticas, mas Deus não permitiu isto e depois de alguns dias ele me levantou do leito hospitalar, fato que deixou os médicos e os que me acompanhavam perplexos. Recentemente estive em um leito hospitalar, com septicemia, desenganado pela medicina aguardando somente o momento de partir, no entanto Deus agiu em meu favor e hoje estou aqui contrariando TODAS as previsões da medicina. Nem por isto eu fui para a minha igreja fazer propaganda do que ocorreu e mesmo assim a sociedade não deixou de saber que eu creio em um Deus que tudo pode.

O que há de fato é uma CONCORRÊNCIA IMORAL E IRRACINAL entre os que vivem desta prática absurda na intenção clara e declarada de promoverem o crescimento de seus grupos religiosos através da exploração da indústria dos milagres. Isto fica ainda mais evidente quando nos programas televisivos o tempo todo é gasto com propagandas de milagres e curas mal explicadas. A humilhação é evidente com os fiéis sendo OBRIGADOS a fazerem acrobacias no palco para comprovarem o tal milagre recebido. Nenhum dos seguidores desta doutrina sequer menciona o céu como objetivo do ser humano, pecado nem pensar, o que evidencia que a salvação se resume a ser curado de uma doença qualquer e pronto. O que vale mesmo é o aqui e agora, a eternidade... Deixa isto para lá, dá muito trabalho para explicá-la para estes curandeiros.

Não encontramos na Bíblia ninguém gritando, dando ordem para Deus, ou fazendo milagres por atacado. Também não encontramos nenhum relato de servos de Deus afirmando que fez ou faz qualquer coisa, os fatos aconteciam naturalmente sem estardalhaço e sem propaganda. Os crentes do passado TESTEMUNHAVAM da graça redentora do amor incondicional de Deus, eles não precisavam de propagandas, pois a vida falava mais alto que as obras e os milagres.

Milagres hão de ser conseqüência e não objetivo na vida espiritual. Antes de qualquer coisa há de se preocupar com a alma e não com o físico, até porque este corpo vai para a sepultura e não para o céu. Fique atento, existem MILAGRES e MILAGRE$ e cabe a você diferenciar um do outro.


Carlos Roberto Martins de Souza
crms2casa@hotmail.com

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